ZÉ DO CACHORRO QUENTE

Abr 21

ZÉ DO CACHORRO QUENTE

Uma amiga minha me contou essa história, sobre um cara que vendia cachorro quente. Sujeito simpático, amigo de todo mundo, sabe? Assim como eu, você certamente conhece pelo menos uma pessoa assim. Mas é claro que meu assunto aqui não é cachorro quente e sim aquela outra coisa que o Zé vendia e que TODO MUNDO sabia…

 

Todo mundo sim! Até a policia sabia! Porque, afinal, os policiais ali do bairro também gostavam de cachorro quente. Pois bem, a história é curta e nem é bem uma história, são na verdade várias. E o fim da história do Zé e de todas as outras é bem parecido. O Zé nunca foi preso. Até onde sei ninguém nunca fez denúncia nem nada. Porque nesse tipo de enredo existem 3 tipos de personagem; o Zé, as pessoas que querem aquela outra coisa que o Zé vende e a “renca” toda que faz vista grossa porque, afinal, o Zé é tão gente boa, né? Ele não faz por mal, né, gente?

 

Isso foi tudo o que eu ouvi da minha amiga, que o cara que vendia cachorro quente também vendia essa outra coisa (que é crime) e que ele nunca foi preso porque todo mundo gostava dele. Mas eu fico pensando… E passam pela minha cabeça algumas frases que a gente ouve o tempo todo em situações como essa. “Imagina! Ele é tão gente boa!” “Ah, tá… Eu sei que ele vende X, mas ah… é o Zé, ele é do bem!”. Pra mim a melhor é “ele não faz por mal”. Eu fico aqui pensando com os meus botões… “Não faz por mal”… De fato, não acredito que seja por mal… É por dinheiro mesmo. E tem tanta coisa ruim que as pessoas fazem por dinheiro, né? Então deve ser ok matar por dinheiro… Roubar, então, é a coisa mais admissível do mundo porque a pessoa só esta pegando o dinheiro mesmo, sem nenhum outro efeito colateral.

 

O que mais me intriga não é nem isso. O que me deixa de queixo caído é o poder do carisma. É inacreditável o poder de um sorriso e de uma carinha de anjo. Ou mesmo aquele jeito leve de ser, levando na flauta, fazendo piada, olhar quase inocente. Eu mesma fiquei surpresa quando uma vez (ou duas…? ou três…?) consegui um emprego porque foram com a minha cara. Agora estou ficando velha (rs) e tenho outros atributos que vieram com a experiência. Mas naquela época eu não tinha muito mais do que a rostinho de boa moça, a cara de pau e a coragem mesmo. Sim, eu tinha outras qualidades muito valiosas que ainda tenho, mas são coisas que não aparecem nem no currículo nem na primeira entrevista. E a julgar pelo currículo da outra candidata (que era muito melhor que o meu), foi a minha aparência que me garantiu a vaga. Aliás… Mais tarde uma funcionária mais antiga me confessou que foi por isso mesmo que me contrataram. O que foi um péssimo negócio porque depois de um mês eu pedi demissão, não tinha o menor jeito pra secretária… Até hoje detesto falar com gente estranha no telefone e tenho vergonha só de lembrar de como em um mês de trabalho ainda me atrapalhava pra transferir ligações… Concordo que o cabelo da outra candidata precisava de um trato urgente! Mas ela tinha experiência na área, enquanto eu não tinha experiência em área nenhuma!!!

 

Mas voltemos ao Zé… O Zé não é só uma carinha inofensiva. O Zé é um criminoso. O que ele vende faz muito mal pra muita gente. Muito mal. Pra muita gente. (Deu pra pegar a parte do “muito” ou preciso colocar em letras maiúsculas?). Não é acidente. Não é sem querer. É crime e tem consequências sérias pra sociedade. O Zé é a serpente no jardim, levando a galera na lábia pra ganhar dinheiro. O cachorro quente é a faixada, é a roupa de palhaço escondendo a granada no bolso. O Zé não se importa com as consequências dos atos dele. Ele não tá nem aí se ele esta destruindo a vida de alguém porque o Zé só quer saber do dinheiro. Então sim, o Zé é uma pessoa do mal. Ele é um bandido, mal caráter, ganancioso, safado. Por que cargas d’agua, então, ninguém denuncia o Zé? Carisma. O cara usa o carisma dele pra ganhar a simpatia das pessoas e fazer com que ninguém leve ele á serio. Ele interage com as pessoas de modo a gerar nelas um certo conforto com relação a ele, as pessoas se sentem á vontade com ele, daí todo resto passa despercebido.

 

Sei que carisma é forte. Trata-se de uma habilidade incrível de envolver as pessoas. Ok. Mas me perturba o fato de que coisas graves como a atividade paralela do Zé seja conscientemente aprovada por um grupo considerável. Me choca o fato de que até quem tinha por profissão lutar contra esse tipo de coisa fizesse parte desse grupo. Me tira o sono pensar que não houve uma boa alma que pra tomar uma atitude. TODO MUNDO foi conivente. E todo mundo é muita gente. Todo mundo inclui vítimas, famílias de vítimas, religiosos, líderes de todo tipo, professores, policiais, etc.

 

Eu sempre fui famosa por causar encrenca com os “Zés do cachorro quente”. Já fui muito criticada por denunciar os Zés. Já quase me arrependi uma vez, de tanto que me tacaram pedra. Mas não me arrependi. Porque pra mim, nem se o cachorro quente do Zé fosse a última comida do mundo, tem coisas que não da pra fazer vista grossa. Existem coisas com as quais eu decidi não compactuar. O Zé do cachorro quente não é amigo de ninguém, minha gente! Vamos acordar? Já está mais do que na hora de mandar o Zé pra cadeia. E se você tem pelo menos amor próprio, saiba que o mal que ele traz pra sociedade te afeta diretamente. Você pode não estar comprando o produto clandestino do Zé, mas o seu vizinho pode estar. Ou o filho do seu vizinho. Ou aquele sujeito lá do outro lado da cidade que vai vir roubar o seu celular ou ferir quem você ama. E a culpa, dentre outras pessoas, é do Zé. E de todos os que que deixam os Zés impunes. Então que tal a gente mudar o fim dessa história? Quem é o Zé do cachorro quente da sua escola, do seu trabalho, do seu bairro, da sua igreja, do seu circulo de amizades? Chega de falar que ninguém faz nada. A não ser que você tenha decidido ser mais um ninguém…

 

(Texto em homenagem à minha amiga que me contou a história do Zé enquanto nós duas juntas tentávamos, com a graça de Deus, juntar os cacos das coisas que alguns Zés quebraram na vida dela… Te amo, amiga! Vai dar tudo certo!)

Leave a Reply

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

*

Pode usar estas etiquetas HTML e atributos: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>