Videos, Lentilhas e Cheiro de Curry

Fev 13

Videos, Lentilhas e Cheiro de Curry

Há quase dois anos atrás eu estava sentada no chão de terra de um vilarejo numa região afastada do Nepal contando histórias da Bíblia pra crianças pela primeira vez. E ali, enquanto elas repetiam uma oração entregando suas vidas aO Senhor, descobri o meu chamado nesta terra, nesta caminhada aqui. E tudo o que eu fiz daquele momento em diante foi sonhando e voltar pra lá.

Cada vez que volto ao Brasil dôo mais roupas das que ficaram lá. Da última vez coloquei meu teclado à venda (e vendi mês passado!). O cachorro e a gata foram para novos lares logo da primeira vez que saí.

Abandonei uma vida. Me desfiz da maior parte dos meus pertences. E fui! Eu só não tinha pensado muito foi que nessa coisa de deixar tudo e seguir o chamado dO Senhor que queimava no meu coração eu em seguida haveria de abraçar novas coisas, construir algo novo.

Pois é. E aqui estou eu às voltas com os preparativos do casamento, que há dois anos atrás era algo que eu não queria mais. Mas O Senhor pegou no meu ponto fraco… Disse que o que Ele tinha pra mim seria mais fácil se eu estivesse casada. Ou seja, se eu realmente tinha me apaixonado por  missões  transculturais em lugares como o Nepal, então era melhor dar o braço a torcer e casar. E não simplesmente casar, mas casar com alguém que fosse seguir na mesma direção que eu (e com a mesma força e determinação).

E eu não sei se somos nós seres humanos que entendemos tudo errado e não sabemos escolher direito o que é bom pra gente ou se Deus tem alguma inclinação a contrariar nossas ideias (obviamente a primeira opção é a correta), mas cá estou eu, noiva de um homem que é completamente diferente de mim, (em níveis que nem consigo explicar). E mais! Não vamos nos casar nem no meu país, nem no dele. Vamos nos casar no país que será nosso próximo destino. E adivinha o que mais? Não é o Nepal…! Oi??? Pois é… Daí você me pergunta: “Mas isso tudo durante estes dois últimos anos não foi só pra voltar pro Nepal??” Pois é… De vez em quando ainda dói. E em dias como hoje fica um pouco mais difícil, mas… O Senhor me pediu pra abrir mão dos meus planos, porque os dEle são maiores e melhores. Mas até você chegar ao topo desse ” plano melhor” o seu ainda parece…maravilhoso…e distante.

Não me entenda mal, eu amo o Eric, ele é uma benção na minha vida, a Nova Zelândia, nosso  próximo  destino, é um lugar excelente e eu tenho certeza de que O Senhor tem algo que Ele quer fazer lá e que Ele quer nos usar pra que isso aconteça. E eu sou grata! De verdade! Por tuuuudo o que Deus tem feito até agora e eu jamais poderia ter imaginado que um dia iria viver o que vivi até o momento. Não tem faltado aventura. Não tem faltado desafios. Outro dia mesmo eu dei risada quando um dos casais que vão ser nossos padrinhos anunciou com alegria que tinham comprado as passagens para o nosso casamento na Nova Zelândia. Detalhe: Eric e eu ainda não temos o dinheiro para nossas passagens… Mas temos o dinheiro pro visto! Mas minha mãe esta doente e ainda não conseguiu ir ao banco sacar o dinheiro da venda do meu teclado e me mandar pra podermos dar entrada no visto. Mas já tenho os sapatos! Que ainda não chegaram pelo correio… E o vestido! Que vou encomendar pela internet assim que os sapatos chegarem e eu conseguir tirar minhas medidas (com eles nos pés) pra mandar fazer. E o bolo! Que um amigo querido vai nos dar! E… Os vestidos das damas de honra! Que os pais delas (que são o outro casal de padrinhos), vão providenciar. E… O dinheiro pra pagar o local do casamento! (Que vai ser numa base da JOCUM e saiu quase de graça!). Milagre atrás de milagre, uma por uma, as coisas estão se encaixando, tudo com nossos joelhos no chão e a consciência DE que este não é o nosso casamento, é o casamento dO Senhor, e tudo o que é dEle, Ele cuida.

Mas hoje, enquanto eu trabalhava num video… Deixa eu explicar… Estou servindo aO Senhor aqui na base mundial da JOCUM que fica nos EUA e semana que vem tem a feira do campus da Universidade das Nações (que é como a gente chama a base). Nessa feira cada departamento mostra a sua visão e o chamado dO Senhor que cada um tem e deixa as portas abertas para quem quiser vir se juntar a eles. Como sou responsável justamente pela parte de comunicação do meu departamento, estou montando um video pra encorajar as pessoas que desejam ajudar pessoas pobres pelo mundo a se juntar ao ministério do qual atualmente faço parte. E como eu precisava imagens de lugares remotos, pobres e de gente indo pregar e ajudar pessoas nestes lugares, fui procurar no meio dos meus arquivos da viagem ao Nepal fotos e videos que eu pudesse usar.

E eu lembrei… E eu… Lembrei.

A verdade é que desde ontem essa nuvem tem pairado sobre a minha cabeça. Foi quando eu estava no refeitório e serviram um molho de carne que tinha curry… O cheiro de curry… O sabor… O toque apimentado. E hoje, na janta, a lentilha. E eu precisei ir correr. Já estou me exercitando com frequência pra perder os quilos que ganhei de uns anos pra cá e por causa do casamento. Mas hoje foi diferente. Eu precisava correr… E eu corri. E chorei. Porque eu lembrei do Nepal, e eu lembrei das crianças, e lembrei do Ram Prasad Bastola que não tem os olhos, e no Ramaya Dub que estuda de manha e trabalha de tarde e de noite num hotel sujo pra ajudar a família, e do irmão dele que parou de estudar pra trabalhar mais, e das meninas tiradas da prostituição, e das crianças, e das crianças…as crianças… E dos olhos sedentos dos adultos que se juntavam a elas pra ouvir minhas histórias, e da Basundara que vende coisas nas ruas de Thamel, e da filhinha dela, a Ruby, e as crianças…e as crianças…

Acho que hoje eu corri mais do que eu costumo. E chorei mais um pouco. Mas uma senhora que O Senhor colocou na minha vida aqui na Universidade me disse uma coisa que me trouxe esperança. Ela disse que talvez essa longa caminhada rumo não só ao Nepal, mas a lugares como o Nepal, pode estar assim meio demorada porque O Senhor está me colocando em contato com as pessoas que me ajudarão a cumprir este chamado. Pode ser que Ele esteja preparando a minha equipe, os que vão comigo, e me preparando também, claro. Mas pode ser que eu esteja de fato pronta pra ir, mas os lugares onde irei ainda  não estejam. Pode ser que as pessoas que irão comigo ainda não estejam. Então comecei a orar pela minha equipe. Já tenho orado pelas pessoas que são e pelas que serão meus intercessores e mantenedores. (E neste momento Eric e eu estamos na luta para tentar levantar mantenedores suficientes para continuar trabalhando como missionários em tempo integral.) Mas hoje comecei a orar pela minha equipe de  missionários. Gente doida que ama desafio e simplesmente não consegue mais viver a vida que tem vivido porque o coração deles está em lugares onde seus pés ainda não pisaram. Pessoas que, um dia, assim como eu no Nepal, vão sentar no chão de terra com gente humilde e ferida, e vão descobrir que felicidade existe. E comecei a orar pelas pessoas que serão seus intercessores e mantenedores, para que eles tenham tudo o que precisam para cumprir seu chamado.

É… Hoje eu meio que esqueci do casamento… Esqueci do visto e das passagens, esqueci da conta bancária e da dor na coluna que de vez em quando incomoda. Porque hoje… Hoje eu lembrei do Nepal. Mas se pra chegar nos Nepais da vida tenho que fazer escala na Nova Zelândia, BORA PRA NOVA ZELÂNDIA! Um dia ainda vou entender esse mapa maluco das minhas peregrinações missionárias e vou dar risada…

 

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