Sobre Casa e Casamento

Nov 07

Sobre Casa e Casamento

Certo homem possuía uma casa onde vivera muitos anos. A casa era grande, com muitos cômodos distribuídos em dois andares. Ela ficava num terreno cuidadosamente delimitado por altos muros e um portão enorme e pesado. Com medo que algum intruso tentasse invadir sua propriedade, o homem acrescentou aos muros uma cerca elétrica.

No ano em que o homem ficou noivo, rachaduras começaram a surgir por toda a casa. Ele as observava crescer, dia após dia. Porém, temendo a possibilidade de ter que deixar a casa, não chamou nenhum arquiteto para averiguar o problema com as rachaduras.

Certa noite, o homem levou sua noiva para jantar num restaurante da cidade para, durante a refeição, conversarem sobre os preparativos da festa de casamento. Naquela noite, não chegaram a uma conclusão sobre a data do evento porque, antes que pudessem discutir esse ponto, o homem mordeu algo muitíssimo duro e quebrou um de seus dentes posteriores. Na manhã seguinte teve seu dente consertado, porém ainda sentia dor. O dentista disse que era normal devido ao acontecido, mas que estava tudo ajeitado e não havia com que se preocupar.

Deu-se o caso de que, no dia em que a data do matrimôrnio fora marcada, a mansão onde o homem morava desabou. Durante um almoço com a família de sua noiva, decidiu-se pelo adiamento das bodas até que se providenciasse um novo local para morarem. Naquele dia comeram uma massa italiana, pois o dente do homem o incomodava bastante.

“Mande limpar o terreno!” Ele ordenou à secretária assim que retornou do almoço. E no dia seguinte saíram para jantar e discutir o projeto da nova casa. Naquela noite comeram postas de peixe bem macias.

Passada uma semana, o homem notou que os escombros da casa antiga ainda cobriam o terreno, como no dia do desabamento. Ao questionar sua secretária, foi informado de que um dos homens contratados para o serviço havia se machucado seriamente na cerca elétrica quando tentava entrar no terreno pulando o muro. “O senhor não lhes deu a chave do portão, chefe…”. Surpreso e constrangido pelo acontecido, ele mesmo foi até o terreno desfazer-se da cerca.

Na semana seguinte, ao passar em frente ao terreno, percebeu que nada havia mudado desde a retirada da cerca. Indignado com o atraso do serviço que contratara, ligou para sua secretária imediatamente. “O senhor precisa lhes entregar as chaves do portão, chefe…” Deixou as chaves na portaria da empresa que limparia o terreno e seguiu para a casa da família de sua noiva. Comeram batatas cozidas e recheadas com creme de queijo e champignons. Naquele dia marcaram uma nova data para a cerimônia de casamento e começaram a providenciar os convites.

Na semana seguinte, quando voltava do correio onde acabara de postar os envelopes para todos os convidados, passou em frente ao terreno. Furioso, deu meia volta e foi bater na porta da empresa responsável pela retirada dos restos da construção. “Senhor, lamento, mas deve haver algum problema na fechadura do portão porque ninguém consegue abri-lo com estas chaves que o senhor nos deixou.” Como já era tarde, decidiu ir direto para a casa de sua noiva que estava a preparar-lhe uma sopa para o jantar. Em lágrimas, o homem disse à sua amada que não poderiam se casar, pois não haveria tempo suficiente para terminar a construção devido à demora na limpeza do terreno. Ela, então, sugeriu que fizessem uma casa menor, mais aconchegante e que isso não impediria que ela fosse aumentada no futuro.

No outro dia o homem se encheu de força e determinação, e decidiu que limparia o terreno ele mesmo! Mas antes de começar, passou no dentista. “ARRANCA!”, disse ele, ao invés do trivial “bom dia”. “Arrancar??? Mas não é necessário, não é caso de extração…”, disse o dentista inconformado com o pedido do paciente. “Arranca! E arranca depressa porque eu não tenho a manhã toda!”

Livre do dente quebrado e remendado, ele se dirigiu ao terreno. Enfiou a chave no portão da sua antiga casa, dando um leve tranco para cima de modo a fazê-la girar. Nas caçambas que há dias haviam sido colocadas em frente ao portão, começou a depositar restos das paredes e da mobília destruída. Sua mão já estava um tanto machucada de carregar pedras quando viu chegar ao terreno sua amada noiva seguida de seus familiares e toda a equipe contratada para o serviço de limpeza.

Em poucos dias a nova casa estava de pé. Radiante, o homem parou diante da nova construção para contemplá-la e percebeu que os muros antigos não combinavam com seu novo lar. Eles eram muito altos e largos para uma casa tão delixada, e o portão pesado demais para sua esposa abrir. Derrubou-os. Todos. Tudo. Substituiu-os por algo de mais fácil acesso e maior beleza. Quando o novo portão fora finalmente instalado, deu um churrasco para comemorar. E na semana seguinte se casou.

O homem nunca sentiu falta de uma casa maior e nem do dente que lhe fora extraído.

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