RUMO À SALA DE CIRURGIA

Out 08

RUMO À SALA DE CIRURGIA

Quando eu vou escrever um texto, eu geralmente tenho uma ideia forte em mente e a partir dela desenvolvo o resto, como quem abre uma massa de pizza (olha eu de novo fazendo referencias culinárias…). A ideia pode ser algo já claro, como uma frase. Quando é assim, eu trabalho construindo o que vem antes dela e o que vem depois, como uma montanha que eu subo e depois desço. Quando não é uma frase, eu fico como que me debatendo em palavras na tentativa de fazer a coisa toda tomar forma e se tornar coesa, como quem sova uma massa de pão.

Mas hoje não. Não é nem um nem outro. Eu nem sei como vou fazer… Como vou escrever. São mil coisas em mim espalhadas, como estrelas no céu, e eu olhando tentando ver constelações. Não tem um tema. Foi uma experiência. Mas acho que tem sim… Tem uma frase… Que não fui eu quem escreveu. Mas que eu repeti varias vezes enquanto um enfermeiro me empurrava na cadeira de rodas rumo à sala de cirurgia. E começou mais ou menos assim…

Viagem marcada pra daí uma semana. Iria me encontrar com meu marido no Alaska onde planejamos passar um tempo (e onde ele esta no momento). Há três semanas atrás eu tinha tido um aborto e estava voltando ao medico só pra confirmar que estava tudo bem. Foi quando descobrimos que tratava-se de uma gravidez nas trompas e que eu precisava ser operada com urgência. Daí eu perguntei pra ginecologista: “urgente tipo…quando…? Esta semana…?”. Ela respondeu: “Tipo… hoje…o quanto antes…” “Tipo…quase já mesmo…?” “’Tipo isso…” – ela respondeu tentando não me deixar em pânico mas tentando me fazer entender que era sério e urgente.

No postinho enquanto esperava o encaminhamento pra internação no hospital e sendo informada a respeito do como as coisas estavam andando eu ouço: “blá, blá. blá…a ambulância vai vir te buscar… blá, blá, blá…”. “Oi? Ambulância?”

Olha… A história é longa e cheia de detalhes e conversas que tive com tantas pessoas que perdi a conta. Gente em salas de espera, médicos, enfermeiros, amigos, familiares. Tanta coisa aconteceu e tanto passou pela minha cabeça, com relação à minha situação, à situação deles, ao mundo, tudo! TANTA coisa correndo nas entrelinhas até o momento em que vieram me buscar. E eu sentei na cadeira de rodas. E pensei no meu filho. No meu marido. No nosso amigo que morreu há cerca de um mês, tão jovem… Na esposa dele, amiga tão querida, nas esposas sem marido, nos maridos sem esposa, nos filhos sem pai ou mãe, na saudade que eu estava sentindo do meu marido e do meu filho e do quanto me sinto perdida sem eles… E as lágrimas começaram a correr pela primeira vez. O medo quis entrar… E eu fechei a porta. E eu repeti várias vezes pelo caminho a frase que mencionei no começo deste texto. E fui falando pra mim mesma, para o medo, para tudo em mim e ao meu redor. E eu e Deus “pegamos junto” ali. Eu repetindo o que Ele disse na Bíblia, e Ele repetindo pra mim o que Ele já disse e escreveu. O versículo que diz: “Estou convencido de que aquele que começou boa obra em vocês, vai completá-la até o dia de Cristo Jesus.” (Filipenses 1:6). Mas como cresci na igreja e ouvi muitas versões deste mesmo versículo, com o tempo a gente acaba juntando outros e tal… Então as palavras que fui repetindo foram: “AQUELE QUE COMEÇOU A BOA OBRA É FIEL PARA COMPLETA-LÁ ATÉ O DIA DE CRISTO.” E “ELE TEM SIDO FIEL!”

Eu tenho trauma de agulhas, sabe? E uma coisa com relação a doenças e coisas estranhas acontecendo no meu corpo, juntamente com uma resistência à dor não muito comum que acabou levando a um diagnóstico tardio da gravidez nas trompas e, anos atrás, uma hérnia de disco enorme. Seja o que for, você há de concordar comigo que não é algo assim simples e corriqueiro ter o seu corpo cortado e costurado e alguma parte dele sendo retirado, agulhas, catéteres, sondas, sangue e mais sangue tirado pra exames e tudo mais. É meio forte… Se você realmente refletir sobre o assunto, é meio brutal, um impacto emocional que não deveria ser deixado de lado. Se eu te contasse sobre os outros eventos que ocorreram na minha vida e na vida da minha família nos meses que antecederam essa cirurgia você certamente concordaria comigo que estou num déficit de lágrimas. Tem gente que fala que eu sou muito forte. Eu não sei se sou. Só sei que tenho que lidar com as coisas que me acontecem, de uma forma ou de outra. O caminho rumo à sala de cirurgia foi o meu momento de escolher o como eu iria lidar com tudo isso. E eu escolhi me lembrar de todas as vezes em que Deus esteve comigo e de tudo o que Ele tem feito na minha vida. De todas as coisas que poderiam ter sido piores e das que nunca me aconteceram e das que foram muito ruins e que Ele mais tarde transformou em algo maravilhoso, muito além do que eu jamais poderia ter imaginado ou sonhado. Filipenses 1:6 soou dentro de mim e me fez lembrar de que nada termina antes do tempo. Porque Aquele que começou a boa obra vai completá-la até que de fato chegue o fim.

Leave a Reply

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

*

Pode usar estas etiquetas HTML e atributos: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>