Naufrágio

Nov 07

Naufrágio

Nele estava a vida, e a vida era a luz dos homens. E em meio da escuridão veio surgindo, como um feixe de luz que vai crescendo conforme a porta se abre. A esperança renasce, como quem, já sem ar, sobe a superfície depois de um naufrágio.

 

Houve muito barulho. Um reboliço dentro do navio. Pessoas corriam de um lado para o outro ainda em trajes de festa. Ela não entendia o que estava acontecendo. A jovem acordou com o barulho nos corredores. Como não tinha companhia, não quisera participar do jantar junto aos demais e ficara em seu cubículo ouvindo música. Ouvira os fogos celebrando a virada do ano e adormecera com os fones nos ouvidos.

Abriu a porta e viu pessoas correndo desesperadas de um lado para outro. Algumas gritavam nomes de familiares, outras apenas corriam.  Não conseguia pensar direito, tinha acabado de acordar… Voltou até sua cabine, olhou em volta, tudo estava normal. Aproximou-se da janela e viu botes salva-vidas sendo lançados ao mar. Ainda foram necessários alguns poucos segundos até que as peças se encaixassem e o desespero a atingisse também.

Celular. Sem bateria. Documentos. Pra quê? Um casaco. Isso! Um casaco! Vestiu-o rapidamente. Meu Deus… É só isso??? Não é curioso como em momentos de desespero instintivamente tentamos salvar o máximo que pudermos de tudo o que está a nossa volta? Afinal, é o contexto ao qual estamos apegados, são os pedaços de um cenário que monta nossa realidade, nosso chão, nossa terra firme.

Correu, desviando-se das pessoas nos corredores, empurrando algumas sem pensar em mais nada além de si mesma e a vida que tentava salvar, sua própria. A quem mais salvaria…? Não havia mais ninguém. Por isso mesmo decidira passar o reveillon num navio, longe de tudo que a fizesse lembrar do passado. Meu Deus… Pra que lado? Qual desses corredores…? PRA QUE LADO???? Decidiu pegar o corredor da direita. Ouvia vozes de pessoas chorando, se despedindo de outras pelo celular. Uma mulher sentada na cama falava com alguém ao telefone; chorava, mas não se movia. Outra enchia uma bolsa com objetos que tirava de um pequeno cofre. Cada um tentava salvar o que considerava mais valioso para si. Ela apenas tentava salvar sua própria vida. Não havia encontrado nada além de si mesma. E corria. Subiu todas as escadas com as quais se deparou, tentando encontrar o caminho para o convés.

Percebeu um som, como de muitas vozes, e o seguiu até que deu com uma multidão de pessoas que se comprimiam contra uma porta grande, fechada. As que estavam mais próximas à porta a esmurravam gritando para que alguém a abrisse. Mais pessoas se juntavam ao grupo dos que se esforçavam para passar pela porta fechada. Alguns gritavam para que os da frente saíssem de modo a poderem arrombá-la, mas era inútil. Mesmo quando alguém lhes dava ouvidos e se desviava para que estes passassem, outros tantos aproveitavam a brecha aberta para se aproximarem mais um pouco da porta trancada. E, quanto mais pessoas chegavam ali, menos podiam se mover. A moça sentiu que logo ela também não conseguiria mais se mexer. Com toda a força empurrou os que estavam atrás dela e passou por entre eles, voltando ao corredor por onde viera, e começou a correr na direção contrária.

O que estou fazendo…? Não posso voltar pra cabine… Lágrimas começavam a rolar pelo seu rosto. Meu Deus… Me tira daqui! Me tira daqui… Me ajude a sair deste lugar… E corria pelos corredores do navio, e era como um labirinto. Tudo parecia igual, como se não estivesse indo a lugar algum. Todas as portas e entradas eram iguais. Virou a esquerda. O primeiro passo neste novo corredor fez um barulho diferente. Sentiu seus pés se molharem. Parou por um instante e observou o longo corredor coberto por uma fina camada de água.

Começou a tentar abrir todas as portas desesperadamente. Mas estavam trancadas. Os gritos agora estavam longe… E ela estava só, nalguma parte do navio que nem ela sabia… Olhou o longo corredor e a infinidade de portas fechadas. Qual delas estaria destrancada? Alguma delas estaria destrancada?? E ainda que estivesse… Poderia dar noutro corredor enorme, que daria noutro canto onde pessoas se esmurravam para tentar passar… Ficou imóvel. O pânico tomou conta do seu corpo e já não podia dar mais nenhum passo. Vou morrer! Meu Deus, vou morrer!!!! Vou morrer… Suas pernas já não podiam mais sustentá-la, pois o medo lhe roubara as forças. Flashes de toda sua vida passavam em sua mente. Tudo acabaria ali.

Enquanto o nível da água subia lentamente, a jovem ouviu dentro de si uma voz que lhe disse claramente. Você só vai morrer aí se você decidir que vai ser assim. Ou você pode escolher se levantar e continuar tentando com todas as suas forças. A moça, então, respondeu à voz dentro de si: mas como…? Como vou sair daqui…? E a voz dentro dela respondeu: há sempre uma porta aberta, e se calou em seguida.

Como se despertasse de um sono profundo, ela se levantou e tornou a tentar abrir as portas, uma a uma. Até que caiu dentro de um quarto onde havia uma sacada. Pela porta de vidro que dava para ela a jovem viu os botes salva-vidas se afastando em meio à escuridão. A porta da sacada estava trancada. Pegou um cabideiro de roupas e deu contra a porta de vidro. Bateu mais duas vezes até que pudeses passar. Assustou-se com a altura. Devia estar próximo ao convés… Mas não saberia chegar lá. Ok… É só água… Eu sei nadar… Eu sei nadar, eu sei nadar… E saltou.

A água estava muitíssimo fria. Começou a nadar. Sua roupa começou a pesar… Tirou o casaco, depois os sapatos, e nadava, com toda força… Mas se movia com dificuldade. Como se fosse puxada para trás… No entanto, não se virou para olhar para o navio. E já estava a certa distância dele quando olhou pra trás e viu pessoas se lançando ao mar. Outras brigando na tentativa de soltar mais um bote. Talvez o ultimo. E continuou a nadar. Nadou até não ter mais forças. Então agarrou-se a algo que viu boiando. Lançou seu corpo sobre o objeto flutuante. Era grande o suficiente para apoiar sua cabeça e tronco. Pernas e braços na água. Viu, ao longe, o navio afundando… E desmaiou.

Quando abriu os olhos um feixe de luz a incomodou. Sentiu uma mão puxando seu braço, outra tocando seu pescoço. ESTÁ VIVA!! PRECISO DE AJUDA AQUI! Envolta num cobertor a jovem viu rostos enbassados à sua volta. Ouviu uma voz lhe dizer. Está a salvo, moça. Vai ficar tudo bem. E ela lhe perguntou: Já é ano novo..?  E ele lhe respondeu: Sim. É ano novo…

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