Andar de bicicleta

Abr 09

Andar de bicicleta

Dizem que certas coisas são como andar de bicicleta no sentido de que, uma vez aprendido, não se esquece mais. Há menos de dois meses atrás comprei uma bicicleta aqui no Havaí pra poder me exercitar e pra poder ir ao supermercado e às praias próximas nos finais de semana livres.

Peguei a mais barata (porque não tinha certeza de quanto iria precisar nos meses seguintes), escolhi um daqueles “negocinhos” de prender a bicicleta pra não roubarem e me dirigi ao caixa. Depois de deixar umas cinco velhinhas passarem na minha frente com suas pequenas compras, uma delas estava com seu marido que, ao me ver com a bicileta, ficou todo empolgado e começou a puxar conversa. “Isso me faz lembrar de quando eu era moço!” – disse ele com um brilho no olhar. “O senhor entende de bicicletas?” – perguntei eu, toda cheia de esperança de que ele pudesse me ajudar a checar a bike e me certificar de que não estava entrando numa daquelas ciladas do tipo “o barato sai caro. “Sim, claro! Eu andava pra cima e pra baixo com meus amigos, fazíamos trilha e tudo mais, voltávamos só no dia seguinte!”. Ele estava mesmo todo empolgado com a oportunidade de mostrar seu conhecimento sobre o assunto e foi comigo de volta à seção de artigos esportivos dizendo que eu não precisava comprar uma bomba pra encher os pneus, era só usar uma das que estava na prateleira e duraria meses! Depois de obter a aprovação do experiente aventureiro alemão (sim, ele era alemão, mas estava nos Estados Unidos há muitos anos), finalmente chegou a minha vez na fila do caixa. A atendente me informou que eu precisaria preencher o papelzinho da licença e mostrar minha identidade. Quase vinte minutos depois consegui sair com a bicicleta.

E lá fui eu! Não… Não fui. Percebi que precisava colocar mais ar nos pneus. Mas pra voltar dentro do supermercado não poderia entrar com a bicicleta, então peguei a trava que tinha comprado pra prende-la no estacionamento. Daí percebi que havia um lacre que precisava ser rompido pra eu poder usar a tal trava. Fui então procurar algum funcionário pra ver se conseguia uma tesoura emprestada. Consegui. Cortei, prendi a bicicleta e voltei dentro do supermercado. Comprei a bomba de ar, voltei ao estacionamento pra descobrir que a bomba também tinha um lacre. Cadê o cara com a tesoura…? Tive que ir ao setor de atendimento ao cliente dentro do supermercado pra conseguir uma tesoura. Depois de toda a novela que você já pode imaginar e que eu não me animo a detalhar, finalmente a bicicleta estava pronta pra ser usada.

Desci a ladeira tentando freiar e ainda assim a bicicleta pegava muita velocidade. Desespero total! Verdade seja dita, a primeira bicicleta que comprei era mesmo uma porcaria (sim porque tive que trocar por outra uma semana depois…). Os freios faziam um barulho que mais parecia uma buzina e todo mundo na rua ficou me olhando ladeira abaixo tentando desacelerar. Eu mais parecia um bêbado pedalando do que qualquer outra coisa. Não conseguia manter o guidão estável e com meu natural desequilíbrio, não conseguia olhar pra trás sem sair fora da pista pra bicicletas. Um desastre! Tal é a minha descoordenação motora que ao final da primeira semana pedalando me enganchei numa grade e fiquei com um dos braços todo roxo, feio mesmo!

Me apresenta pro cara que inventou essa coisa de que não se esquece como andar de bicicleta que eu vou dizer umas verdades pra ele! Ok, não foi assim tão mal. O básico meio que foi, mas o equilíbrio, o domínio dos movimentos, a naturalidade, não rolou. Eu nunca fui muito equilibrada mesmo, mas não lembro de ser tão complicado andar de bicicleta na rua… E é claro que a minha revolta com todo esse processo desde a compra da bike até o “acidente” me fez pensar em um monte de coisas que quando aconteceram comigo pela segunda vez foram quase que tão difíceis quanto da primeira vez. Ou até mais difícil. Fazer pizza, por exemplo. Eu sempre acertava o ponto da massa e ficava ótimo! Simplesmente esqueci, não consigo mais acertar o ponto e até meus pães resolveram escolher o dia que vão crescer e o dia que não vão. Tocar piano é sempre um mistério. Nunca sei se a coisa vai sair bonita. Os relacionamentos então… Quem consegue explicar esse negócio??? Tem vezes que é tão fácil puxar conversa com um estranho e tem dias que a estranha sou eu, no sentido mais literal da palavra!

Pra terminar eu queria me juntar ao clube dos que não tiveram sucesso num casamento ou namoro mas que ainda tem esperança de se casar e formar uma família (e que volta e meia decide que vai ficar solteiro, mas sempre muda de ideia depois). Não, não é como andar de bicicleta! A gente esquece um monte de coisas, às vezes quase tudo. Não sabe como fazer, como lidar, mas é capaz de responder praticamente todas as perguntas sobre o assunto. Mas ao mesmo tempo é um pouco parecido também porque na hora de “pedalar”, mal consegue se manter na faixa de ciclista e se olhar pra trás quase cai. Não tenho receita pronta. Não sei bem como vai ser no futuro. E não tenho muito pra dizer a não ser que é normal esquecer como se faz as coisas e ter medo de tentar de novo e que acidentes acontecem e a gente levanta e fica bravo e envergonhado. Mas, quer saber de uma coisa? Todo mundo é assim, viu? A frase sobre andar de bicicleta não é muito confiável, mas tem uma que é bem verdade: “quem não arrisca não petisca!”. Então bora andar de bicicleta! Mas escolhe uma boa, viu? Porque “o barato sai caro”!

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