A Mulher e a Porta

Nov 07

A Mulher e a Porta

As chaves sobre a mesa. A mesa, ao lado da poltrona. A poltrona, quase de frente para a porta. A porta, fechada à chave.

Olhava para a porta imóvel. Batia com os dedos no braço da poltrona verde enquanto a impaciência travava uma batalha com a insegurança. A porta, espessa, rígida, enorme e estática; como que encarava a figura sentada na poltrona à sua frente. Desafiava-a sem palavras. Afinal, portas não falam…

“Porta maldita!” – pensou quem se sentava na poltrona, revoltada com o silêncio maciço da porta de madeira. E escorregou mais um pouco no assento. E a dor crescia dentro do peito. Mil pensamentos lhe passaram pela mente naquele momento, como um bando de pássaros dando um rasante sobre sua cabeça. Mas foram calados pelo molho de chaves que quase se mexera sobre a mesinha. Reluziam as chaves aos olhos de quem ocupava a poltrona verde. Pareciam querer se levantar dali e encher-lhe a mão direita, uma a uma.

O que haveria atrás da porta? Depois dela o que a esperava? Haveria algo? Haveria esperança? Haveria um recomeço ou, se quer, uma continuação? Quando tudo parecia ter se acabado, a porta viera zombar de quem se sentava diante dela, desafortunada e sem coragem. “Como ousa, tu, pedaço de pau, morto e preso ao batente, zombar de mim?? Queres que te dilacere até que já não sirvas mais para nada?” … “Insolente…!”

Uma hora de silêncio, como o silêncio de um quarto de hospital. Os pensamentos foram se diluindo, se perdendo, e veio o cansaço. Cochilou… E o sono lhe era muitítssimo agadável. Mas acordou. Haveria de despertar em algum momento. E lá estava ela, a porta, no mesmo lugar, mais quieta do que nunca. Nem sentira sua falta enquanto adormecera. Nem se incomodara.

ONDE ESTÃO AS CHAVES??? Saltou da poltrona a porcurá-las. Desespero. ONDE ESTÃO??? Um suspiro de alívio ao ver seu brilho despontando por debaixo do babado verde da beirada da poltrona. Abaixou-se para pegá-las. Ergueu-se com um sorriso lhe saindo nos lábios e iluminando, de leve, seu rosto. Mas o sorriso rapidamente se desfez ao perceber-se em pé, chaves na mão direita, uma delas alinhada ao polegar, diante da porta. Tomada de pavor, ela virou seus olhos em direção à porta de madeira que a encarava vitoriosa.

Não teve coragem. Caiu de joelhos e se arrastou rumo à poltrona onde se apoiou para chorar copiosamente. Sua alma exposta, seus medos à mostra, sua fragilidade latente. Ela não poderia abrir a porta. Ela não poderia abrir a porta…

Quem a abriria, então? E a porta já não mais a desafiava. Agora, como a mulher, a porta aguardava. Horas se passaram. Estática, a mulher havia se recolhido na poltrona. Abraçava as pernas e tinha os pés escondidos sob as saias. Já não olhava para a porta. E a porta já não olhava para ela. Uma e outra calaram-se sem muita esperança. Mas havia esperça, ainda que pouca.

E esperaram em silêncio, sem sorrir, entre um cochilo e outro. As chaves guardadas entre os dedos da mão que descansava sobre o peito… Até que se ouviu o barulho das trancas da porta se movendo lentamente… PELO LADO DE FORA!!!

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