A Escola de Merda

Set 09

A Escola de Merda

Era uma vez uma Escola de Merda. O dono dela era o poderoso senhor Anta, que na verdade nada mandava, apenas embolsava os lucros. Logo abaixo dele, havia o diretor financeiro, o senhor Porco; e a diretora pedagógica, a senhora Otária. Obviamente, como em todas as instituições de ensino, havia uma briga ferrenha entre o setor financeiro e o pedagógico, que nunca dava em nada….

Um dia, o senhor Anta, deu-se por insatisfeito com seus ganhos. Entendeu que deveria obter mais retorno financeiro do seu empreendimento do que o que lhe fora apresentado na última reunião com o senhor Porco. Ao questionar sobre as entradas do ano anterior, senhor Anta obeteve a seguinte resposta do seu querido diretor: “é culpa do pedagógico!”. E assim, senhor Anta foi para casa pensando no assunto… No caminho, observou um homem que falava com eloquencia e a todos convencia com seu discurso. Perguntou-lhe: “o senhor consegue fazer muito dinheiro com esse negócio aí?”. O homem lhe respondeu: “e como não?? Basta convencê-los de que é o que eles precisam e eles molham sua mão com as verdinhas!” Admirado com tanta sabedoria, segurança e desenvoltura, decidiu demitir a senhora Otária e contratá-lo como novo diretor pedagógico.

De fato, o homem tinha um vozeirão que chamava a atenção de todos. Além do mais, era grande, bigodudo, de feições marcantes e imponentes. O sujeito era mesmo enoooorme!!! Sendo assim, logo se impôs na Escola de Merda e ganhou o respeito de todos.

Havia, sim, muitas diferenças entre o senhor Porco e o senhor Mané (esse era o nome do novo diretor pedagógico). No entanto, parecia que se entendiam muitíssimo bem, falavam a mesma língua! Caíram nas graças um do outro. Os professores, no entanto, pareciam não compreender muito bem os modos do senhor Mané… Falavam entre si: “com certeza deve ser estrangeiro…” Mal sabiam eles que o senhor Mané era dali da vizinhança mesmo…

Bom, para encurtar a história, muitas mudanças foram feitas desde a chegada do senhor Mané. Ele parecia acatar cada sugestão do senhor Porco sem exitação. Em pouco tempo a escola estava mudada. (Sim, porque, numa escola de merda, não há nada tão bem fundamentado que não possa ser destituído e substituído por outra coisa).

Foram meses de muita confusão e alvoroço. A cada dia mais projetos eram criados para agradar a clientela e cabia aos professores colocá-los em prática. Em outras palavras, era de responsabilidade deles fazer com que funcionassem corretamente. Quando algum dos projetos não era bem sucedido, o senhor Mané reunia todo o corpo docente no auditório para questioná-los sobre o que seria o problema e o que poderia ser feito para solucioná-lo. Certa vez um professor perguntou a opinião dele sobre um problema que estava tendo com seus alunos, pois estavam muito indisciplinados e agitados durante a aula. Senhor Mané não pensou duas vezes.

-Ora, é muito simples! Sua aula não deve estar agradando!” E continuou: “Veja bem, quando estamos com fome, ficamos nervosos, agitados… Isso é normal!”.

O professor interrompeu:

-FOME???

-Sim, fome – ele disse – O que mais é necessário nessa vida senão comer? Especialmente quando jovens… Crianças comem muito!

Alguns no auditório estavam confusos, outros perplexos,  mas não conseguiam se quer reagir, apenas ouviam o discurso do coordenador pedagógico.

-Por isso mesmo eu nunca passei necessidade! Meu emprego anterior era o melhor e mais importante do mundo!

-E o que é que o senhor fazia antes? – perguntou o professor.

-Eu vendia bananas, é claro!

BANANA: fruta alongada cuja casca é amarela e o interior branco, sem sementes, fácil de descascar, encontrada em abundância no Brasil, consumida em grande escala e vendida a preços extremamente baixos.

-O senhor vendia… BA-NA-NAS????

-Ora, ora, senhor Burro de Carga! Vejo que domina bem a matéria que leciona! Separou as sílabas direitinho! Mas voltemos ao assunto… Precisamos tornar as aulas mais divertidas! Afinal, quem é que gosta de estudar, não é mesmo? Se ficarmos ensinando coisas úteis, os alunos perderão o interesse na nossa escola e irão para o concorrente. Eu já conversei com o senhor Porco e facilitaremos a forma de pagamento também, como eu fazia na feira! Funciona que é uma beleza!

Nos meses que se seguiram, houve uma verdadeira avalanche de pais que vinham reclamar que seu filho estava casado de sempre fazer as mesmas brincadeiras, ou que o professor tinha sido muito duro com ele quando ele havia se dependurado na janela, e especialmente, que seus filhos não passavam nos testes. Foi então que as provas mudaram. Dali pra frente os alunos apenas precisariam assinar seus nomes nas provas e os professores deveriam orientá-los quanto ao preenchimento de todo o resto. Com o tempo, os alunos começaram a não entender mais as orientações dos professores e já não assinavam seus nomes por completo. Numa turma com quatro alunas chamadas “Mula”, apenas uma lembrara de escrever o sobrenome.

Muitas e muitas reuniões e cursos sobre vendas e sobre a importância das bananas ocorreram nos últimos meses daquele ano. Os professores já não tinham mais tempo de ir pra casa devido ao número de eventos fora do horário de aula. Passaram a acampar na sala dos professores. Durante a noite, ouviam-se narizes fungando, suspiros prolongados e, de vez em quando, algum grito. Mas gritavam apenas aqueles que conseguiam dormir o suficiente para terem pesadelos.

Quando a confusão começou a afetar os rendimentos da escola, começaram as demissões. Aqueles que não coneguiam tirar licença por motivos de saúde, ou era demitidos, ou pediam demissão. No lugar deles entraram mais e mais pessoas, professores ou não, tentando ensinar ou simplesmente ganhar o seu pão de cada dia. Mas acabavam como os demais: ou eram demitidos, ou pediam demissão, ou conseguiam atestar problemas de saúde e se afastavam do trabalho.

Foi ouvindo o movimento dos feirantes na rua de trás da escola que os professores que restaram tiveram uma idéia. No dia seguinte, quando o senhor Mané chegou na escola, não havia mais nenhum deles na sala dos professores. Sem entender nada, correu para o portão e perguntou ao segurança:

- Cadê todo mundo??? Ninguém vai dar aula hoje, é? O que aconteceu?????

O segurança nem se deu ao trabalho de abrir a boca. Apontou para o muro no fundo da escola de onde vinham vozes que gritavam:

- Olha a banana! Olha a banana!!!!

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